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Critica: Tudo que quero

Ser fã significa desenvolver uma espécie de relação de amor / admiração com algo / alguém. É inserir universos inteiros em um cotidiano que nem sempre consegue atender às nossas expectativas. É saber que muitas vezes, a ficção – seja em qualquer uma de suas inúmeras formas – se transforma em um muro no qual podemos nos sustentar em momentos nos quais a vida real mostra sua verdadeira face.

Wendy (Dakota Fanning), a protagonista de “Tudo que quero” (Please stand by) é uma jovem de 21 anos, portadora de autismo. Em seu mundo particular, ela cria versões de histórias passadas no Universo de Star Trek – franquia de séries, livros e filmes que em solo brasileiro ficou conhecida como Jornada nas Estrelas, ainda que hoje em dia a versão original prevaleça nos materiais relacionados ao tema.

No vasto cenário criado por Roddenberry há 54 anos, Wendy consegue se enxergar de maneira natural. Nas aventuras vividas pelo Capitão James T. Kirk e a tripulação da icônica nave Enterprise, há lugar para a garota que em seu dia a dia se vê à margem de uma sociedade que ainda tem dificuldades em aceitar qualquer coisas que saia de sua zona de conforto, daquilo que é considerado “normal”. O personagem Spock lhe serve como justa inspiração.

Sua família se resume à irmã mais velha Audrey (Alice Eve), que não se sente preparada para cuidar da irmã caçula em sua própria casa, na qual vive com o marido e a filhinha. Tal fato faz com que Wendy tenha que morar em um local especializado no tratamento de pessoas com autismo, onde tem uma rotina tão rígida quanto tediosa, sob a supervisão de Scottie (Toni Collette), sua terapeuta que não sabe “qual a função de Kirk no Universo de Star Wars” (sim, há essa pontuação durante o filme e acredite: ela soa engraçada em conjunto com a reação do filho adolescente da personagem).

A vontade de participar de um concurso da Paramount Pictures, que propõe a entrega de um roteiro original imaginado para uma futura produção de Star Trek faz com que Wendy ultrapasse a linha divisória que a impede até mesmo de atravessar a rua sozinha. Se sua jornada diária a leva apenas até o trabalho em uma lanchonete, seu coração de fã a levará até Los Angeles, onde fica a sede do Estúdio Cinematográfico, para fazer a entrega a tempo de seu minucioso trabalho de 500 páginas.

Acompanhar sua jornada é tão recompensador quanto intimidante. Perceber que o mundo não é mais afável diante de uma pessoa que apresente qualquer dificuldade, que a gentileza nem sempre é uma opção para os indivíduos com quem esbarramos em nosso cotidiano, é algo que machuca quem não entende a acidez que acompanha as atitudes a maioria dos seres humanos.

Mas ela não está sozinha. Quem a acompanha nessa aventura é o adorável cãozinho Pete, trajado com seu pequenino uniforme da Frota Estelar, ostentando a famosa insígnia (no seu caso, nas costas). Não consigo imaginar uma companhia mais agradável e fiel.

O filme é singelo e surpreendente. Em declaração, Dakota Fanning revelou que se sentiu desafiada pelo papel e que não conseguia imaginar outra atriz em seu lugar. Talvez por isso, seja tão fácil abraçar a ideia de vê-la interpretando a garota apaixonada por Star Trek, que procura trazer à sua restrita vida um pouco da imensidão do espaço sideral.

Wendy sabe que há muito a explorar, ainda que isso signifique “apenas” descobrir a melhor maneira de seguir em frente junto aos que ama. Assim como tem consciência de que a limitação causada pelo autismo está longe de ser a Fronteira Final para seus sonhos.

Curiosidade: Quem é fã de Star Trek não terá dificuldade em perceber as referências à produção, tanto na escolha de uma das atrizes, quanto no nome de uma das personagens. Brilhante.

Vale conferir.

por Angela Debellis

*Texto originalmente publicado no site A Toupeira.

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