Crítica: “Eu sou mais eu”

Não chega a ser novidade que boa parte das pessoas já tenha se pego pensando em como seria bom poder reviver anos passados, mas com a experiência que se tem no presente. Mas, será que retornar a tempos “menos favoráveis”, seria mesmo uma boa ideia?

Isso é o que acontece com a cantora pop star Camilla Mendes (Kéfera Buchmann), protagonista da comédia dirigida por Pedro Amorim, “Eu sou mais eu”. Aos 30 anos, a artista está no ápice de sua carreira, mas o sucesso é proporcionalmente inverso a sua empatia para com os que a cercam, sejam família, colegas de trabalho ou ardorosos fãs.

A inesperada viagem no tempo acontece quando sua “Fã Nº 1” (Estrela Straus) pede para tirar uma foto com ela. Ao ser forçadamente clicada pela câmera do celular, Camilla retrocede quinze anos e se vê de novo em 2004, em pleno ensino médio, quando parecia muito improvável – para não dizer impossível – que viesse a alcançar tanto sucesso.

Esse cenário do começo dos anos 2000 é o que servirá de fundo para mostrar as desventuras da protagonista, agora presa em seu corpo de adolescente, vítima de bullying no colégio e sem a certeza do que deve fazer para conseguir voltar para sua realidade atual.

O roteiro de Angelica Lopes e L. G. Bayão, apesar de pouco inovador, é competente ao mostrar como determinados fatos que parecem isolados podem marcar uma vida toda. O bullying orquestrado por sua colega de classe Drica (Giovanna Lancellotti) e superado até certo ponto, ainda se mostra poderoso o suficiente para mexer com as emoções de Camilla.

Por outro lado, o reencontro com seu melhor (entenda-se único) amigo de classe, Cabeça (João Cortês), será fundamental para que a personagem entenda o que precisa ser feito para retomar sua vida do ponto em que ela foi interrompida por esse retrocesso temporal.

É muito divertido – e talvez levemente assustador, olhando por outro ângulo – perceber como muitas coisas mudaram nesses quinze anos que separam as duas partes da história. Desde o inesquecível celular azul que tinha o “jogo da cobrinha” ao Discman que insistia em travar no meio da faixa (o que fazia com que tivéssemos que “limpar o CD” na camiseta antes de recolocá-lo no aparelho), passando pela falência das locadoras de VHS / DVD.

A narrativa ganha mais dinamismo e credibilidade pela detalhada cenografia e quando faz uso de icônicas músicas da época como Ragatanga, canção que catapultou o grupo Rouge ao sucesso em 2002. Interpretada por Kéfera, a faixa que dá nome ao filme também surge como boa surpresa na forma de um clipe que segue à risca a cartilha padrão da maioria das atuais estrelas da música pop.

Apesar de nitidamente pensado como comédia juvenil, o filme também consegue fazer refletir sobre como certos pontos de nossa trajetória são fundamentais na construção de nosso caráter e como é importante aproveitar cada pequena e muitas vezes despercebida oportunidade de estar com quem de fato interessa.

Vale conferir.

por Angela Debellis*

*Texto originalmente publicado no site A Toupeira.

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