Crítica: “Meu Querido Filho”

“Meu Querido Filho” (Weldi), é o novo filme do diretor tunisiano Mohamed Ben Attia. Riadh (Mohamed Dhrif) é um pai de família tunisiano, lidando com a futura aposentadoria e com o problema cada vez mais forte de enxaqueca de seu filho, Sameh (Imen Cherif). Suas preocupações se veem mudadas, no entanto, quando Sameh parte sem deixar rastro, e em enquanto procura por motivo, descobre que ele partiu para se juntar ao ISIS (Estado Islâmico).

É curioso como brasileiros poder observar o mundo islâmico, sem ser do ponto de vista americano, mas a partir da visão daqueles que lá habitam. Particularmente, quando precisamos entender o contexto de suas questões religiosas, e da modificação dos panoramas político-religiosos com o surgimento do ISIS. A partir disto, o longa nos mostra como se relacionam as famílias pouco religiosas e os filhos que se alistam no ISIS.

Dentro do roteiro, um grande sentimento de isolamento social é demonstrado, particularmente em relação ao pai. Além dos próprios artifícios do roteiro, isso se dá pelo enquadramento das cenas: a câmera se foca menos em representar a paisagem, e mais nos personagens principais, às vezes até deixando de fora os demais, mesmo em diálogos. Outro aspecto técnico interessante é a trilha sonora: minimalista em estilo (caracterizada por repetições de certos motivos em sequências próximas), e instrumentação, e usada muito precisamente durante o longa.

As atuações são eficazes. Mohamed Dhrif traz às telas a dramaticidade do pai perdido, e demonstrada bem a súbita percepção do esfacelamento de sua relação com o filho, evocando bem as mudanças bruscas de emoção do pai. Mouna Mejri é Nazli, a mãe, e traz o contraponto do relacionamento estável com o pai, a relação atribulada representando o lado mais exigente da família. Por fim, Imen Cherif – o filho -, solitário, confuso, e apartado do meio familiar, mesmo agindo de maneira próxima, nunca entendemos bem seus motivos, e seu afastamento só justifica mais isso.

Apesar de todos os lados atrativos, a produção tem alguns problemas: a duração mais longa somada ao ritmo mais lento torna-se algo que para espectadores menos acostumados a filmes mais artísticos e não americanos pode ser incômodo.

“Meu Querido filho” é um filme interessante. Seja para observar um modo de desmonte dos vínculos familiares, compreender o mundo islâmico de outro modo, e até mesmo para quem se interessa em entender as relações entre problemas psicológicos e sociedade.

por Ícaro Marques*

*Texto originalmente publicado no site A Toupeira.

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